Artigo Opinião retirado do Expresso
Redigido por Renato Nunes Presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação
12 março 2026 07:00
Têm chegado relatos preocupantes: atrasos de diagnóstico que conduzem a sequelas permanentes e à diminuição da sobrevida, gastos avultados com tratamentos ineficazes e lesões graves provocadas por práticas sem a devida supervisão especializada
Portugal não está a garantir uma resposta suficiente nos cuidados em reabilitação. Seja numa recuperação pós-AVC, um acidente de viação ou uma queda, um doente oncológico, seja para múltiplas outras situações do quotidiano de pessoas idosas, grávidas, crianças, a reabilitação é, muitas vezes, o que separa a dependência da autonomia, o agravamento da recuperação, uma vida funcional de uma vida marcada pela incapacidade.
No centro desta resposta está a Medicina Física e de Reabilitação (MFR), uma especialidade médica com mais de 50 anos, transversal a praticamente todas as áreas clínicas.
É, por isso, que os médicos fisiatras têm de estar presentes e acompanhar toda a cadeia assistencial, desde o primeiro dia de entrada no sistema de saúde até à reintegração plena na comunidade. Têm de estar presentes nos hospitais, nos centros especializados de reabilitação, na rede de cuidados continuados e nas estruturas de proximidade, incluindo os cuidados de saúde primários. Têm. Devem. Mas nem sempre acontece. Sobretudo numa porta de entrada no sistema, como as unidades de saúde familiar, ainda se verifica uma carência generalizada de recursos.
A fragilidade nesta área da reabilitação é também evidente nas assimetrias territoriais.
De acordo com os dados divulgados recentemente pela Entidade Reguladora da Saúde, em cerca de um terço dos municípios de Portugal continental (84, no total) não existem serviços de MFR – uma realidade particularmente expressiva no Alentejo, onde mais de metade dos concelhos (57%) se encontrava nessa situação.
Estas desigualdades prejudicam diretamente os doentes e a continuidade dos cuidados.
À Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação (SPMFR) têm chegado relatos preocupantes: atrasos de diagnóstico que conduzem a sequelas permanentes e à diminuição da sobrevida, gastos avultados com tratamentos ineficazes e lesões graves provocadas por práticas sem a devida supervisão especializada. Estes casos não são meras exceções — revelam um problema estrutural que coloca em causa a proteção da saúde pública.
É neste contexto que a Sociedade Portuguesa de Medicina Física e de Reabilitação (SPMFR) defende a criação de um Plano Nacional de Reabilitação, que assegure o acesso equitativo aos cuidados necessários e garanta equipas multiprofissionais devidamente coordenadas.
Este documento foi já há muito tempo apresentado aos responsáveis pela política de saúde em Portugal. A todos foi sublinhado também que a reabilitação é um direito fundamental das pessoas e deve assumir a linha da frente nas prioridades de saúde pública. Cada atraso, cada falha de coordenação, cada ausência de supervisão especializada pode traduzir-se em incapacidade permanente, maior dependência e perda de dignidade.
Trata-se de cumprir um dever essencial do Estado: proteger a saúde e o futuro dos seus cidadãos.